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Viva o Brigadeiro!

Mal tinha acabado a Guerra, com a vitória dos Aliados, derrubaram o Getúlio. Deu aquela febre de eleição, jornal só falando de política, parece que o povo andava meio alucinado. Também, fazia mais de quinze anos que ninguém votava pra Presidente da República, a última vez tinha sido em 1930. Mesmo assim acusaram o governo de fraude, foi quando depuseram o Washington Luís, o Getúlio saiu do Rio Grande e tomou o poder.


No Brasil inteiro a política pegou fogo, ninguém falava noutra coisa. Era um tal de alistar eleitor, cabo eleitoral zanzando pra tudo quanto era canto, não havia papel almaço que chegasse pros requerimentos. Os partidos daquele tempo? Tinham muitos. Os mais importantes eram o PTB, chefiado pelo Getúlio, que saiu candidato e se elegeu senador por vários estados; a UDN, que lançou o Brigadeiro, e o PSD, criado também pelo Getúlio, reunindo os coronéis que tinham mandado durante a ditadura.


A gente pensando bem, vendo as coisas com os olhos de hoje, até que não tinha tanta diferença ente os partidos não. Mas, naquele tempo, a rivalidade era uma coisa medonha. Briga feia mesmo era entre o PSD e a UDN. O PTB quase só existia nas cidades maiores, lugar com mais indústrias, concentração de operário, coisa ainda rara naquela época. Os integralistas do Plínio Salgado, que o povo chamavam de galinha verde, fundaram o PRP, não sei se aliavam com a UDN, sofreram na mão da Polícia, muitos tinham sido presos e obrigados a tomar purgante. Os comunistas? Andaram lançando candidato, mas quase não tinham voto, não. Lembro de um tal Crispim, nem sei o que aconteceu com ele, logo o partido foi fechado.


A briga mesmo era, como eu disse, entre UDN e PSD. O Brigadeiro de um lado, Dutra do outro. O Brigadeiro de um lado, Dutra do ouro. O Brigadeiro – o nome dele era Eduardo Gomes – tinha sido herói na tomada do forte de Copacabana, era um dos chamados “Dezoito do Forte”, que na verdade, nunca foram dezoito. Até um doce inventaram com o nome de brigadeiro, fora um outro, chamado Dona Geny, que era o nome da mãe dele. O candidato do PSD, apoiado pelos trabalhistas, era o general Eurico Dutra, que tinha sido Ministro da Guerra do Getúlio.


Campanha política era coisa que muita gente nunca tinha visto, um verdadeiro acontecimento. Foi chegando a eleição, a situação esquentando, todo mundo tomando partido, o povo lavava a alma. Ninguém ficava de fora.Eu, você sabe, na condição de médico, resolvi não entrar na briga. Achei que devia ficar acima das paixões, tinha amigos dos dois lados, não queria criar malquerença com ninguém.


Faltando pouco para a eleição, bateram uma noite na minha porta. Voz de gente aflita, chamando sem parar. Atendi, mandei entrar. Era uma turma de quase meia dúzia, trazendo um companheiro que sangrava muito. Vi logo que era tiro, a bala tinha acertado no ombro, resvalou e saiu. Enquanto fazia o curativo, ia conversando, fazendo pergunta, distraindo o ferido:
- Brigou com quem?
- Briguei, não senhor.
- Foi acidente?
- Mais ou menos.
- Como?
- A gente tava no bar fazia um bom par de horas.
Uma birita pa cá, uma cerveja pra lá, de repente veio o assunto de política. Aí um propôs: - “Vamos dar um viva pro nosso chefe?”
- E então?
- Então, todo mundo topou, cada um pegou seu copo e eu, muito burro, gritei: - “Viva o Brigadeiro!” Nessa hora um sujeito protestou: - “Deixa de ser besta, rapaz! O nosso chefe é o doutor Getúlio!” Mal falou, foi puxando a garrucha e me sapecando fogo. Na hora, achei que não escapava.


Mais aliviado pelo curativo e percebendo que o ferimento não tinha gravidade, ele disse:
- Como o senhor vê, não foi nem briga nem acidente...
Depois sorriu amarelo e completou:
- ... foi um viva errado que eu dei.

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