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Doutor Marcial

Marcial era conhecido como presidente da cidade de Alfenas, doutor legítimo com diploma da universidade federal da Guanabara, formado na capital do Rio de janeiro, professor na faculdade de Direito de Alfenas, professor de Cirurgia buco-maxilo-facial da Universidade Federal de Alfenas, professor de história e geografia do colégio Leão de Faria. Promotor de Justiça. Dr. Marcial mandava e desmandava na cidade, o povão até apelidou de Barão de Alfenas. O homem aumentava a voz de um lado o povão murchava a oreia do outro; como dizia Tio Fernando:
- Manda quem pode, obedece quem tem juízo.


Na política foi vereador pelo PTB, tinha mais de quinze mil afiliados no partido, elegia desde deputado a prefeito. O povão tinha até medo de dar palpite, imagina bandiar de lado, aí tava morto de vez.


Quando deu no jornal Alfenense que nosso governador doutor Israel pinheiro, tinha convidado doutor Marcial pra chefiar a secretaria do Tesouro de Minas Gerais foi um foguetório danado, o sino da igreja num parava de bater. Era telegrama em cima de telegrama, telefone não parava de tocar.


Doutor Marcial estava acabando de tomar banho, dona Terezinha Faria veio com ternão listrado, botou o cabide na cabiçeira da cama como de costume. Só pelo sorriso e o olhar doutor Marcial agradeceu, abraçou a esposa, deu um beijo demorado e disse:
- Terezinha minha esposa depois que eu voltar das reuniões na capital de Minas, vamos conversar e decidir nosso futuro.


Dona Terezinha, moça bonita, prendada, professora de datilografia, tinha aquele jeito de agradar todo mundo, tinha conversa pra todo tipo de assunto. Passado as visitas de última hora, botou a criançada na cama e foi até a padaria buscar polvilho pra fazer pão de queijo.


Dona Terezinha assustou mesmo foi quando ela viu a conversa dos professores João Batista e seu Mathias. De orelha em pé, o coração quase saindo pela boca, ela sofria por dentro. Quem era ela para abrir a boca, Deus me livre!


Mas precisava escutar a conversa dos dois; segurava firme o rosário que carregava dentro da bolsa, agarrando firme com Deus, quem sabe ela abrandava os nervos dos dois professores.


Professor João Batista falava alto e de boca cheia:
- Dr. Marcial é o progresso de Alfenas, aqui o povo não dá o devido valor. Deveria receber o título de donatário de Alfenas.


Professor Mathias, levava a vida berrando, encrenqueiro e topetudo, retrucou:
- Progressista pode ser, mas donatário de Alfenas já é demais.


João Batista emendou:
- Tem mais uma coisa professor Mathias, doutor Marcial ainda vai ser Governador de Minas Gerais. Se Deus quiser vai chegar a Presidente do Brasil.


Professor Mathias virou uma onça. Desculpe-me professor não vou medir forças com o mestre, mas vou dizer uma coisa:
- O nosso Governador doutor Israel pinheiro teve a infelicidade na escolha, isso teve.


Aí dona Terezinha, não agüentou e disse:
- O que foi que o senhor disse?
- repita isso de novo, professor Mathias.


Desculpe lhe falar assim, mas meu marido doutor Marcial não merece isto não. O senhor deve respeito e muita obrigação ao meu marido, pois ele tem carregado o senhor nas costa ha muito tempo. O senhor é a vergonha da faculdade, nem o juramento dos professores o senhor cumpriu. O senhor ainda não foi exonerado do cargo porque meu marido não deixou.


Seu Mathias pedia a Deus para abrir o chão debaixo dele, assim ao menos não passaria por este vexame.


Dona Terezinha emendou como diz o ditado:
- Pau que nasce torto, cresce e morre torto.

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